domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os Antigos Carnavais


São Luís, atualmente, vive um momento de resgate das características originais e primitivas do seu Carnaval.
Este folguedo tão tradicional já teve, por aqui, momentos de glória, apogeu, decadência e, ainda bem, resurgiu nas últimas décadas nas ruas da capital com força total e no melhor estilo de outrora: o de rua!

As primeiras manifestações momescas teriam aparecido em São Luís entre o final do século XVIII e o início do século XIX. E o representante maior das referidas manifestações, principalmente na segunda metade do século XIX, teria sido a brincadeira do Entrudo.

O termo surgiu em Portugal e significa "entrada", e era festejado em comemoração à entrada da primavera, antes do cristianismo. Depois da implantação do cristianismo na Europa, a data de celebração do Entrudo acabou convergindo com o período carnavalesco.

No Brasil, o Entrudo reinou absoluto no período colonial, atingindo seu apogeu durante o século XIX, "quando começou a ser preterido
em nomes dos bailes de mascarados promovidos
pelos clubes carnavalescos cariocas
conhecidos como Grandes Sociedades."

Em São Luís (o carnaval se iniciava logo após as festividades de final de ano), o Entrudo alcançou seus momentos de glória nas primeiras décadas do século XX e envolvia os mais diversos meios sociais, com características peculiares a cada um deles. Consistia numa guerra saudável entre determinados grupos, onde se usavam as "cabacinhas", pequenas bolas de fina borracha ou de cera, cheias de perfume, água colorida, farinha de trigo ou mesmo fuligem de chaminé, para atingir o oponente ou o transeunte mais desavisado.

Com o tempo, o Entrudo foi ganhando uma conotação mais agressiva e sendo hostilizado por determinados ramos da sociedade e das autoridades locais. Com o tempo, passou a ser substituído por outras formas de "interação social carnavalesca"; ao passo que o Carnaval de Clubes, Bailes de Máscaras ou mesmo bailes realizados em imóveis alugados passava a ser febre entre os foliões da capital. Entre os nomes que ficaram na história estão o Baile do Bigorrilho, o Saravá, a Gruta de Satã, o Rei Pelé, o Clube dos Sargentos e Subtenentes do João Paulo.

Foi a época áurea do "Rodó", que nada mais é do que o tão conhecido lança-perfumes, que em terras ludovicenses ganhou esta alcunha com a distorção, ao longo do tempo, do nome da marca de lança-perfumes"Rodouro", de selo "Rhodia".

O Rodó começou como forma de paquera e conquista nos Bailes, onde se jateava a solução no pescoço da(o) pretendente. Com o tempo, passou a ser utilizado como entorpecente, causando muita polêmica entre a população maranhense.

Existiam já, à epoca, inúmeras Escolas de Samba como Turma da Mangueira, Flor do Samba, Turma do Quinto e Fuzileiros da Fuzarca, todas com seu toque marcante, que acabou se perdendo com o tempo, influenciadas pelo toque das Escolas cariocas, com excessão dos Fuzileiros da Fuzarca. Tambores de Crioula, Tribos de Índio, Baralho, Caninha Verde, Fandangos, Grupos de Urso e Chegança eram também brincadeiras frequentes.

A classe média passeava nos seus carros importados, enfeitados, percorrendo as principais ruas da cidade, entoando marchas e portanto instrumentos de percussão. A classe mais humilde também fazia a sua festa; desfilava em caminhões enfeitados e adaptados ao serviço carnavalesco, com foliões sentados em fileira na carroceria. Eram os famosos "Corsos". A "Casinha da Roça" é uma adaptação rural do Corso que existe ainda hoje nas ruas durante o carnaval.

Jovens da classe média também organizavam seus blocos, usando fantasias exóticas e rostos pintados. Entre os famosos estavam Curinga (Legionários), Pif-Paf, Mal Encarados, Tarados e Vira-Latas. Alguns grupos eram integrados apenas por homens, mostrando a clara separação dos sexos no carnaval da época.

Os bailes da alta sociedade aconteciam no Casino Maranhense, no centro da cidade, depois surgiu o Lítero e o Jaguarema, que também realizaram tradicionais bailes. Às vezes, grupos representando cada um destes clubes saíam em Corso pela cidade (vide foto).

Algumas figuras carnavalescas imortalizaram-se na cidade nesta época: o Urso, o Esqueleto, o Cruz-Diabo, a Índia Potira e o Fofão, espécie de pierrot mal acabado, são ótimos exemplos disso. Infelizmente apenas o Fofão sobreviveu ao tempo...

Na década de 60, o então prefeito de São Luís, Epitácio Cafeteira, determinou o fim dos Bailes de Máscaras, que eram tradicionais na capital e, depois disso, entraram em decadência. O carnaval ludovicense começou, alguns anos mais tarde, a entrar em crise sendo, à partir de então, influenciado pelos carnavais de outras regiões do país, principalmente do Rio de Janeiro e de Salvador. As nossas Escolas de Samba, antes conhecidas como Turmas, passaram a adotar o modelo carioca, de carnaval de passarela. Até o toque das Turmas mudou!
Até meados dos anos 80, o Carnaval ludovicense havia perdido bastante de sua força, culminando na quase extinção de sua originalidade durante a década de 90. Começou, à partir daí, um movimento de resgate das origens, principalmente no que se refere ao carnaval de rua, patrocinado pelo poder público e por iniciativa privada.
Nota-se hoje, pelas ruas, o ressurgimento de muitas brincadeiras outrora extintas (inclusive o Entrudo) e, desta forma, o carnaval ludovicense vai assumindo novamente o papel que sempre teve; o de excelente carnaval de rua.
Infelizmente o caminho inverso está sendo tomado pelas cidades do interior do Estado, onde o carnaval, a não ser pela tranquilidade, não tem nada de autêntico.


6 comentários:

  1. Muito bom o teu blog, São Luís tava precisando de algo assim.

    Abraços, http://musicamaranhense.blogspot.com/

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  2. Muito boa a matéria Ramssés. Resumir a história do carnaval maranhense em poucas linhas é muito difícil, mas você conseguiu tocar nos pontos principais.
    Eu, carioca radicado na ilha desde 1975, ainda cheguei a curtir um pouco dos fantásticos carnavais maranhenses, nos clubes, Lítero com a banda 'Os Fantoches' e Jaguarema com 'Nonato e Seu Conjunto'; nas ruas, com os blocos de sujos, as 'turmas' com suas cadenciadas 'batucadas' (ritmo de samba exclusivamente maranhense), os banhos de maisena no trajeto entre as praças Deodoro e João Lisboa, pelas ruas da Paz e do Sol, e, os desfiles de escolas, blocos, etc... pela rua do Passeio sentido Rua Rio Branco... e a triste transição copiada de outras terras.
    Muita coisa pra contar que se perdeu em tão pouco tempo. Uma pena...
    Penso que o resgate deveria ser mais profundo e comandado pelos artistas e produtores que fazem a cultura popular maranhense. Que bom seria reviver tudo aquilo. Resta - por enquanto, espero - parabenizar os 'Fuzileiros da Fuzarca' por manterem-se fiéis às origens.
    Parabéns a você também Ramssés pelo artigo.

    Um abraço

    Tainha
    tainha.ma@gmail.com

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  3. Obrigado pelos comentários; o SÃO LUÍS EM CENA ainda está bem recente, mas estou me esforçando para escrever coisas interessantes aos leitores. O enfoque principal mesmo são curiosidades sócio-histórico-culturais...nada de assuntos chatos. Abraços

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  4. Ainda conheci, quando criança na década de 70, algumas dessas manifestações tradicionais do carnaval que, na época ainda era mais puro com blocos formados nos bairros, onde todo mundo padronizava a fantasia e fazia uma batucada muito boa. Ainda se via pessoas adultas vestidas de urso ou de fofão trazendo uma boneca na mão,pedindo esmola e assustando as crianças.
    Que bom que o poder público tomou iniciativas de resgate de algumas dessas tradições. Este ano(2010), parece até que a mídia nacional está dando destaque ao carnaval de São Luís, ao lado de outros destinos como Rio, Salvador e Recife. Pelo menos vi na Globo e na TV Brasil algumas coberturas jornalísticas do nosso carnaval.

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  5. Ramssés.
    Bastante interessante esse teu breve passear pelos idos saudosos dos carnavais, digo breve por falta de alguns dados que, além de ilustrar, enriqueceriam tua postagem como o fato de que as Escolas de Sambas são oriundas dos Turmas de Samba e que, somente após o advento do Carnaval Espetáculo do Rio de Janeiro, nos idos finais da década de 60, passaram a ter a conotação atual e que o hoje conhecido como Bloco Tradicional (bem mais antigos que as Escolas de Samba), ante Bloco de Ritmo, embrionados nos salões de folia da alta sociedade entre os anos 1920 e 1930, é manifestação genuinamente ludovicence.
    Realmente tua postagem é uma ótima referencia histiográfica, como tudo o que aqui colocas.
    Sim! Temos um blog onde colocamos coisas do Bloco Tradicional e onde poderás constatar o que acima coloquei: www.casadoblocotradicional.blogspot.com

    Abraços,
    Ubiratan

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  6. Obrigado Ubiratan, pela colaboração e complementação nas informações. Desculpe não falar tanto sobre os Blocos Tradicionais, é que o nosso Carnaval é tão grandioso, rico e peculiar, que fica difícil sintetizar em um simples artigo toda a sua grandiosidade.
    mas, quem sabe não faço um artigo somente sobre isso, que achas?
    Abraçõs, obrigado.

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