segunda-feira, 11 de abril de 2011

O primeiro automóvel do Maranhão



Poucos entre os que vêem a cidade de São Luís atualmente tomada de veículos sabem a verdadeira saga destas máquinas em terras timbiras. Nesse sentido, transcrevo para o blog um artigo interessantíssimo da Revista Ventura, escrito por Fernando Silva, sobre o primeiro veículo importado para o Estado, ainda em 1905, pelo industrial Joaquim Moreira Alves dos Santos, o popular Nhozinho Santos que, entre essa e outras coisas, também foi responsável pela introdução do futebol no Maranhão. Mas isso é assunto para um outro artigo. Eis o texto:

"O tempo era o do fraque e da cartola! Carruagens e tílburis circulavam pelas ruas de São Luís, conduzindo cavalheiros e circunspectos e damas de estirpe. Bondes puxados por parelhas de muares ligavam o centro da cidade à Madre Deus, aos Remédios e ao Caminho Grande. Locomotivas a vapor impulsionavam trens demandando a Vila do Anil. O Maranhão crescia e progredia. Na capital, funcionavam o serviço telefônico e a comunicação telegráfica via Cabo Submarino, o algodão liderava a pauta dos produtos de exportação, vapores singravam nossos rios transportando passageiros e mercadorias, “paquetes” aportavam no ancoradouro da Beira-Mar, as casas comerciais da Praia Grande vendiam ao mundo e compravam do mundo, e negociantes investiam na indústria. Em 1894, somente no setor têxtil, encontravam-se em funcionamento no Maranhão, doze fábricas, nove em São Luís, duas em Caxias e uma em Codó. Os ludovicenses freqüentavam a sorveteria de Adolpho Cohen na rua Formosa, o Café Riche, de Lino Moreira, a Praça de Touros no Anil, o Velódromo no Tivoli, o Hipódromo no Campo d’Ourique, as quermesses no Largo do Carmo e no Largo dos Remédios, os salões de dança do Clube Euterpe Maranhense e também assistiam a espetáculos de companhias estrangeiras no Theatro São Luís. O intercâmbio comercial e cultural, o recebimento de jornais, de revistas e da correspondência dos filhos que aprimoravam conhecimentos em Portugal, França, Inglaterra e Alemanha, mantinha a elite maranhense informada das novidades que afloravam no Velho Continente. As antigas, enormes e pesadas “carruagens sem cavalos”, movidas pelo barulhento e fumacento motor a vapor, (iguais àquela que Joaquim Nabuco de Araújo possuiu no Rio de Janeiro e foi destruída num abalroamento, quando dirigida por Olavo Bilac), estavam sendo substituídas por um veículo de carroceria leve, design moderno e motor a explosão de petróleo – invenção dos alemães Karl Benz e Gottlieb Daimler. Surgia o “automobile”, em português, automóvel. No Brasil, o automóvel chegou na década de 90, do século XIX. Em 1891, em São Paulo, Alberto Santos Dumont passeava num Peugeot, motor de 3,5 HP, comprado por seu pai na Usina de Valentigney, na França. Em 1900, no Rio de Janeiro, o engenheiro Fernando Guerra Duval importou um Decauville. Naquele mesmo ano, José Henrique Lanat, industrial francês radicado em Salvador, recebeu um Clément. No Maranhão, o introdutor do automóvel foi nosso conterrâneo Joaquim Moreira Alves do Santos, o “Nhozinho Santos”, como era carinhosamente chamado pela família e pelos amigos. Em novembro de 1905, regressando à terra natal, formado técnico em indústria têxtil, na cidade de Liverpool Inglaterra, “Nhozinho Santos” trouxe na bagagem a maravilha tecnológica da época: um automóvel inglês Speedwell, modelo Phaeton (um “open touring car” ou carro descapotável para passeio), de quatro lugares, motor De Dion Bouton, monocilíndrico, a gasolina.
Antevendo o sucesso que o automóvel faria em São Luís, tomou a iniciativa de ensinar alguns empregados da sua empresa Fabril, a dirigir. Os dois primeiros habilitados, Sebastião Raimundo dos Santos e Otaciano Pereira, tornaram-se chauffeurs profissionais, desempenhando aquela atividade até quando a idade permitiu. Sebastião foi proprietário de automóvel de praça, e seu último carro, um reluzente Mercury, cinza claro, ano 1951, fazia ponto no Posto Vitória. Otácio, nome com o qual Otaciano ficou conhecido, trajava impecável farda inseparável képi da mesma cor. Ao longo de muitos anos, foi motorista particular do industrial Adhemar Maia de Aguiar. À frota de quatro veículos, três automóveis e um auto-ônibus, então existente no primeiro decênio do século XX, com o curso dos anos, incorporaram-se novos exemplares fabricados na Europa. Em 1914, já havia uma empresa local explorando os serviços de aluguel de automóveis. Naquele ano, no dia 17 de abril, aconteceu o primeiro acidente de trânsito em São Luís. Um automóvel da firma Teixeira & Branco, conduzindo em seu interior o desembargador Bezerra de Menezes, descia com velocidade adequada a rua do Sol. Aproximando-se o veículo da rua dos Craveiros, surgiu repentinamente um menor correndo atrás de uma bola, e apesar da destreza do condutor, o atropelamento foi inevitável. A vítima faleceu no local. O motorista foi inocentado, contribuindo para esse ato de justiça o depoimento do passageiro e de pessoas que presenciaram a lamentável ocorrência. Naquela época, os candidatos a chauffeur amador e chauffeur profissional eram examinados por uma banca presidida pelo Intendente (Prefeito), tendo como membros Joaquim Moreira Alves dos Santos (Nhozinho Santos) e o engenheiro eletricista Antonio Nogueira Vinhais, sendo que os três examinadores assinavam as carteiras dos aprovados. Com a eclosão da 1ª Guerra Mundial, ficou prejudicada a importação de veículos europeus, surgindo a oportunidade para que os fabricantes da América do Norte colocassem aqui suas “máquinas’, conquistando o mercado. Em 1927, os entusiastas do automobilismo obtiveram permissão legal para organizar corridas de automóveis, e a praia do Olho d’Água foi o local escolhido para as disputas. Das primeiras competições realizadas, em 21 de agosto, 18 de novembro e 4 de dezembro, apresentaram-se veículos das marcas Willys Knight, Buick, Overland Six, Chevrolet e Studebaker, entre outras. A maior velocidade foi de 110 quilômetros, desenvolvida por um Buick Master, motor de 6 cilindros e 70 HP, pilotado por Wilson Nova da Costa, que recebeu como prêmio uma medalha de ouro oferecida pelos concessionários J. Aguiar & Cia. As duas primeiras chauffeuses de São Luís, Maria José (Zezé) Jorge e sua irmã Gracinha Jorge Martins, em 1930 passeavam pela cidade dirigindo seus automóveis Bentley e Plymouth. Na década de 30, os veículos de maior representatividade eram o Bentley de Zezé Jorge, a limousine Buick Eight, carro oficial do interventor federal Paulo Ramos e a limousine conversível Fiat, de Gracinha Gândra Pereira. No pós-guerra destacaram-se os top de linha famosos como o Lincoln Continental, do industrial Alberto About, o Chrysler conversível, do médico Nunes Freire, e os Cadillacs “rabo de peixe” do industrial Eugênio Barros e do comerciante Paulo Abreu. O automóvel, outrora símbolo de status do seu proprietário, foi se transformando num indispensável meio de transporte para as famílias. Depois de mais de 100 anos da chegada do primeiro automóvel ao Maranhão, circulam pelas ruas e avenidas de São Luís, segundo dados oficiais, mais de 200 mil veículos. Joaquim Moreira Alves dos Santos, o “Nhozinho Santos”, além de ter sido o introdutor do automóvel no Maranhão, foi também pioneiro de muitas outras novidades. Era filho de Ana Joana Moreira Neta dos Santos e do imigrante português Crispim Alves dos Santos, então proprietário da Companhia Fabril Maranhense, de casa comercial na Praia Grande, principal acionista e diretor do Banco Hipotecário e Comercial do Maranhão, co-fundador da Companhia Telefônica do Maranhão, vice-presidente da Associação Comercial e vice-cônsul honorário de Portugal. Nhozinho Santos casou-se com Amália Carvalho Branco dos Santos, com quem teve seu primeiro filho, Crispim Alves dos Santos Neto. Enviuvando, contraiu segundas núpcias com Maria Sousa dos Santos (Dona Cotinha), nascendo José Sousa dos Santos, seu segundo filho. Com o falecimento prematuro do pai e, poucos anos depois, do seu tio, João Alves dos Santos, Nhozinho Santos assumiu a direção dos negócios da família, dirigindo todos os empreendimentos com largo descortino, até que, no final dos anos 20, desligou-se das empresas, transferiu a direção das mesmas aos seus irmãos Manuel (Maneco) e Antonio (Totó) e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu por muitos anos num enorme casarão na Rua Xavier da Silveira, no então elegante bairro de Copacabana, até o seu falecimento."


FOTO:
Nhozinho Santos em seu automóvel; Gaudêncio Cunha, Revista do Norte, 1905.

FONTE:
http://www.comunidadelusobrasileirama.org.br/noticias/primeiro_automovel.html

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Remo e as Regatas (de 1900 a 1929)


Origens

Em 1900, os “sportmen” maranhenses tentam implantar

mais uma modalidade esportiva - desta vez, voltaram-se para o

remo, e a utilização dos rios Anil e Bacanga. É criado o “Clube de

Regatas Maranhense”, instalado na Rua do Sol, 36. Manoel Moreira

Nina foi seu primeiro presidente: “Club de Regatas Maranhense -

Director Presidente - Manoel G. Moreira Nina; Vice Director

Presidente - Jorge Brown; Director Secretário - José Carneiro

Freitas; Director Thesoureiro - Benedicto J. Sena Lima Pereira;

Director Gerente - Alexandre C. Moreira Nina; Supplentes: 1º -

Manoel A. Barros; 2º - Othon Chateau; 3º José F. Moreira de

Souza; 4º - Antônio José Silva; 5º - Almir Pinheiro Neves;

Commissão d’Estatutos: Dr. Alcides Pereira; Eduardo de A. Mello;

Manoel Azevedo; Arthur Barboza Pinto; João Pedro Cruz Ribeiro”.

(“A Regeneração”, 21 de fevereiro de 1900). Essa iniciativa foi

efêmera. Os primeiros passos foram dados, para colocar as coisas

no rumo certo, mas faltaram recursos para aquisição das

embarcações apropriadas e também faltou apoio do comércio e

das autoridades constituídas.


1908

A 13 de setembro voltou-se a falar na implantação do remo

chegando a ser organizada uma competição, envolvendo duas

equipes que guarneciam os escaleres “Pery” e “Continental”. Os

irmãos Santos estavam envolvidos em uma prática esportiva -

Nhozinho - como era mais conhecido Joaquim Moreira Alves Dos

Santos - como timoneiro e Maneco - Manoel Alves dos Santos -

como voga; A. Lima (sota-voga); B. Azevedo (sota-proa); e A.

Vasconcelos (proa), na “Pery”. A largada deu-se onde é a ponte do

São Francisco, com chegada na rampa do Palácio, sendo vitoriosa a

baleeira “Continental”, que tinha no timão, F. Oliveira; como voga,

J. M. Sousa; voga, J. Sardinha; sota, Maneco Sardinha; e na proa,

Raimundo Vaz. Essas atividades, realizadas no rio Anil, começam a

se tornar hábito das manhãs de domingo e feriados, contando com

uma boa afluência de público.


1909

Nas comemorações de 28 de julho em São Luis, houve outra

prova de remo, tomando parte da mesma militares do 24º BC do

Exército e da Marinha (Capitania do Porto e Escola de Marinheiros),

sendo utilizado barco a dois remos. A elite maranhense fez-se

presente tomando parte ativa, pois atuaram como árbitros da

competição: os coronéis Albino Noronha e Carlos, e os doutores

João Alves dos Santos, Antônio Lobo, Domingos Barbosa, Viana

Vaz foram os juizes de chegada. Na partida, funcionaram Braulino

Lago, capitão-tenente Rogério Siqueira, Dr. Armando Delmare,

João José de Sousa, Francisco Coelho de Aguiar e o Dr. José

Barreto; como juizes de raia, estavam o comandante João Bonifácio,

Charles Clissot, Agnelo Nilo e Antônio José Tavares; sendo o diretor

de regatas, o tenente Haroldo Reis. A saída deu-se na Rampa do

Palácio, tomando parte nos diversos páreos os escaleres: o do

comércio tinha como patrão Antônio da Silva Rabelo; o “Fogo”,

contava com o mestre João Tibúrcio Mendonça; o “Espírito Santo”,

tinha como mestre Manoel Joaquim Lopes; o “Remedinhos”, com

Hermenegildo A. de Oliveira; o “Alfândega”, Bernardo de Serra

Martins; o “Oriental”, João Romão Santos; o “São José”, Raimundo

Alves dos Santos; o “Flor da Barra”, de Carlos Moraes. Participaram

ainda, os escaleres “João Lisboa”, “Gonçalves Dias”, “São Luís”,

“Nero”, “28 de Julho”, “Correio” e “Bequimão”. O trecho entre a

Rampa do Palácio e a Praça Gonçalves Dias estava todo tomado

por um grande público. A partir daí, quase todos os anos, no dia 28

de julho, essas competições faziam parte das festividades. Mesmo

assim, as regatas foram se arrastando em São Luís, com os

abnegados, aqui e ali, aproveitando uma comemoração para realizar

uma prova no rio Anil. O “Clube de Regatas Maranhense” chegou

a ser fundado novamente, muito embora as condições do rio não

apresentassem as ideais, pois não oferecia segurança. O mar, em

determinadas épocas, ficava muito agitado, temendo-se que uma

virada ou o desequilíbrio de um tripulante pudesse vir a ser fatal,

dada a freqüência dos tubarões.


1910-1915

Neste período, a modalidade esportiva de remo entrou

em crise no Maranhão, voltando a reviver posteriormente graças

ao empenho do cônsul inglês em São Luís, Sr. Charles Clissot.


1916

Mesmo com contratempos, foram promovidas algumas

competições de remo em São Luis, sempre no rio Anil, como a

deste ano, que tinha como objetivo implantar, definitivamente, o

remo, inclusive com a criação de uma “Liga do Remo”. (Martins,

1989, p. 217). Os amantes do “esporte do muque”, como era

conhecido, adquiriram no Pará - onde o remo estava plenamente

consolidado - duas baleeiras apropriadas, batizadas de “Jacy” e

“Alcion”. Devidamente equipadas, eram guarnecidas por

empregados do comércio, que se apresentavam bem adestrados no

seu manejo. No dia 26 de março as duas embarcações fizeram-se

ao mar, realizando um “passeio”. A “Jacy” - equipe branca - tinha

como guarnição J. Nava (timoneiro); Júlio Galas e A. Martins

(vogas); A. Santos e Nestor Madureira (sota-vogas); Humberto

Jansen e A. Cunha (sota-provas); e S. Silva e J. Travassos (proas);

já a “Alcion” - trajes azuis -, contava com Humberto Fonseca

(timoneiro); A. Paiva e Avelino Farias (vogas); e A. Rosa e M.

Borges, como proas. As competições realizavam-se isoladamente,

no rio Anil, e não há registro do por que a “Liga do Remo” não se

estruturou. Nas manhãs de domingo, as embarcações realizavam

passeios, mais como recreação do que como disputa, não obstante

os esforços do capitão Melo Fernandes, dos vogas Barão Mota,

Agostinho e Manoel Tavares, dos sota-proas Acir Marques e Haroldo

Ayres, dos proas Joaquim Carvalho e Francisco Viana e do “crock”

Maneco Fernandes. Na Escola de Aprendizes de Marinheiros o

remo também era praticado, dispondo de uma guarnição que

treinava diariamente. Contava com os vogas Cantuária e Fulgêncio

Pinto; como sota-vogas, com Almeida e Abreu; na proa, Belo e

Matos; sota-proas, Zinho e Oliveira e o patrão era Fritz.


1917

Neste ano – em plena 1ª. Guerra Mundial -, enchia-se de

esperança para os praticantes dos esportes. No Maranhão, diziase

que dois esportes marcariam presença definitiva para ficar, o

remo e o futebol: “Apesar da guerra, das crises financeiras, do

alto custo de vida, etc., a mocidade só pensava no futuro, olhos

fixos no dia de amanhã, e, por isso, preparava-se fisicamente.

Pensar diferente era ir de encontro à lógica dos fatos que se nos

apresentavam diariamente, onde se viam rapazes, que eram

incapazes de levantar, como dizia o adágio popular, um gato

pelo rabo. Era inadmissível e errônea a educação do espírito

sem a educação dos músculos, como dizia Müller. De tudo o

homem devia saber. Um organismo raquítico nada valia. Era o

importante para suportar uma moléstia, comentavam os críticos.

Pregava-se o exercício do remo, porque esse esporte era de uma

real utilidade. Esperava-se para breve que, na capital do

Maranhão, pudéssemos nos rejubilar da existência de um bom

futebol e que o remo se tornasse um esporte definitivo, com

prática assídua” (Martins, 1989).


1927-1929

Promoveram-se alguns festivais, no rio Anil, em São

Luís, sempre com receios de ataques de tubarões, que subiam para

desfrutar dos dejetos despejados pelo Matadouro Modelo. Em 28

de julho de 1928, promoveu-se uma regata, em homenagem ao

comandante Magalhães de Almeida, tendo a frente os “sportmen”

Antônio Lopes da Cunha, sempre envolvido com as coisas do esporte,

Cláudio Serra, Hermínio Belo, Benedito Silva e Gentil Silva. As

embarcações não eram apropriadas, usando-se botes de quatro

remos para a distância de 500 metros, embarcações de pesca à

vela e outras de qualquer espécie, desde que não superiores a dez

palmos de boca, embarcações com motores de popa ou internos,

lanchas à gasolina, etc. As embarcações tinham os mais variados

nomes: “Maranhão”, comandada pelo patrão Justo Rodrigues;

“Sampaio Corrêa”, com Gino Pinheiro, como patrão; o bote “São

José”, com Horácio dos Santos como patrão. A firma Marcelino

Almeida & Cia - proprietária do “Loyde Maranhense”-, colocou os

vapores “São Pedro” e “São Paulo” à disposição dos convidados

especiais. Para as comissões, foram cedidos os rebocadores “Mero”,

“Loyd”, e “Satélite”, gentileza da “Booth Line Co.”, do “Loyd

Brasileiro” e de “Santos Seabra & Cia”. Naturalmente que o

homenageado - Magalhães de Almeida - foi o presidente do Júri de

Honra, que contou ainda com as presenças de Dr. Pires Sexto, do

comandante Martins, do coronel Zenóbio da Costa, Dr., Jaime

Tavares, Major Luso Torres, Dr. Basílio Franco de Sá, Dr. Constâncio

de Carvalho e João de Mendonça. A “comissão de chegada” era

composta por Clóvis Dutra, Agnaldo Machado da Costa, Dr. Horácio

Jordão, Dr. Waldemar Brito, e Sr. Edmundo Fernandes; a “comissão

de partida e raia”, contava com Cláudio Serra, Hermínio Belo,

Melo Fernandes e Américo Pinto; o cronista, Gentil Serra e o Diretor

técnico da Regata, Arnaldo Moreira. Os dois primeiros páreos

homenagearam o coronel Zenóbio da Costa, comandante da Força

Pública do Estado, a Associação Maranhense de Esportes Atléticos

- AMEA -, na pessoa do Dr. Waldemar Brito; o terceiro, foi em

homenagem ao aniversariante do dia, o comandante Magalhães de

Almeida, então governador do Maranhão; o quarto, foi em

homenagem ao Capitão dos Portos, comandante Moreira Martins,

com o quinto, sendo homenageado o Prefeito de São Luís, Dr.

Jaime Tavares e, finalmente, no sexto páreo, o homenageado foi o

major Luso Torres, comandante do 24º BC, do Exército. Dado ao

êxito da manhã esportiva, cogitou-se na criação do “Clube de

Regatas Atenas”, que teve como incorporadores e fundadores, os

esportistas Sílvio Fonseca, José Simão da Costa, Euclides Silva,

Herculano Almeida, Carlos Aragão, Dário Gusmão, Anísio Costa,

Murilo Viana, Francisco Lisboa, e José Teixeira Rego. Para começar,

iria se adquirir uma iole a quatro remos, medindo 11 metros de

comprimento - a primeira no gênero a singrar águas maranhenses

-; esperando-se que outras fossem “financiadas”. Mas o novo

esporte do remo em São Luis feneceu nos anos seguintes.




Fontes:

Martins, Dejard Ramos. Esporte: Um Mergulho no Tempo. São Luís:

Sioge, 1989

Remo no Maranhão, 1900 – 1929

Leopoldo Gil Dulcio Vaz (2005)


Foto:

Maranhão 1908, Gaudêncio Cunha.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Os primórdios do Cinema em São Luís

Bem conhecidas são do grande público a produção audiovisual e cinematográfica ludovicense; festivais tradicionais e consagrados, como o Festival Guarnicê de Cinema, um dos mais antigos do Brasil, ajudam a difundir e massificar cada vez mais esta cultura entre os mais diversos meios sócio-culturais da cidade.
O que pouca gente sabe é que a experiência do maranhense com a "7ª Arte", em especial o habitante de São Luís, ocorreu muito precocemente. Aliás, já através dos primeiros contatos com os aparelhos cinematográficos, no final do séc. XIX e início do séc. XX.

A historiografia do cinema maranhense e sua tragetória, apesar de ser tema muitas vezes raro em abordagens acadêmicas, por conta de sua riqueza e peculiaridades, é assunto para diversos artigos neste sítio, o que, provavelmente, será feito em breve, descrevendo os acontecimentos à partir do surgimento das casas especializadas em projeção na capital. Iremos nos ater, a princípio, nas suas origens por estas terras e nos acontecimentos que nortearam este contato.

O cinema em São Luís começou com o que os especialistas chamam de Ciclo do Cinema Ambulante, fase do cinema pertencente ao final do séc. XIX e início do séc. XX, na qual os aparatos para a projeção eram inúmeros, de origens européias diversas e de diferentes tipos de processamento da imagem a ser exibida. À medida que alguns métodos ou aparatos iam ficando obsoletos, outros já mais modernos e com mais recursos iam substituindo-os. Os andarilhos proprietários dos equipamentos (brasileiros e estrangeiros eram ativos participantes dessa empreitada) além de projetar os filmes importados da França e Inglaterra já padronizados pelos estúdios de origem, geralmente eram também autores e diretores primitivos de filmes que exibiam o próprio cotidiano nacional, com suas devidas limitações, é claro.

Sem contar que Moura Quineau se aventurou em projetar filmes estrangeiros em São Luís ainda no fim do séc. XIX, pode-se dizer, com propriedade, que o primeiro registro de filmagem feita verdadeiramente em São Luís foi de autoria do italiano "José Fellipe", proprietário do Bioscópio Inglês, segundo projetor cinematográfico a passar por aqui.
O Bioscópio Inglês fez grande sucesso no Teatro São Luís (atual Teatro Arthur Azevedo), onde esteve de 13 de julho a 09 de agosto de 1902, em todas as noites, projetando “Enchentes à cunha” e “Casas regorgitadas”, como afirmam os Jornais da época.
Após o retumbante sucesso, foi convidado para, com seu aparato, participar da noite comemorativa da adesão do Maranhão à Independência do Brasil; depois de vários discursos e recitais literários e de piano, o Bioscópio entrou em ação.
Um "retrato projetado" dos rapazes da Oficina dos Novos (grupo literário liderado por Antônio Lobo), como bem registrou "O Federalista", teria sido, assim, a mais antiga imagem cinematográfica feita em São Luís.

O segundo registro só foi acontecer em 1906, com o sr. Rufino Coelho Junior, maranhense radicado em Paris, e seu Cinematógrafo Parisiense.
Na primeira temporada de exibições, à partir de 28 de agosto, ocupou o Teatro São Luís para depois mudar-se para o Largo dos Remédios, afim de participar dos festejos da Santa.
No Largo, seus filmes foram exibidos nos dias 08, 09 e 10 de setembro, sempre por volta das 23:00 hs, em sessões muito concorridas.
No último dia de exibições, o sr. Rufino projetou o que seria o segundo filme genuinamente filmado em solo maranhense; mostrava o Pavilhão da Quermesse, a imagem de Nossa Senhora dos Remédios e a figura do Comendador Augusto Marques, o promotor do tríduo.
Ali nascia a nossa cinematografia...

Filmagens do tipo só iriam ocorrer novamente em 1910, já na fase dos cinemas instalados como casas de espetáculo na capital como o Ideal Cinema, o cinema São Luiz e o Pathè, que disputavam a preferência do requintado público.
Em agosto daquele ano o Ideal Jornal trazia a notícia de um filme mostrando aspectos paisagísticos da cidade, de autoria de Luiz Braga, projecionista do cinema de mesmo nome e provável primeiro diretor cinematográfico ludovicense.

O Ideal Cinema também foi pioneiro nos filmes nativos com enredo; a comédia "E durma-se com um barulho deste!" revelou os patrícios de iniciais J.S. e A.R. como sendo bons atores iniciantes. A fita também foi obra de Luiz Braga, que realizaria mais alguns filmes para a grade de programação do Ideal.

Em 1911, a excelência passa ao Cinema São Luiz, com as filmagens do primeiro mandato do governador Luís Domingues, em março daquele ano. Em 18 de maio, "A Pacotilha" registra a exibição da fita "As Festas de S. Benedito", com a saída da missa, a procissão e a saída da igreja na Rua do Sol.
No dia seguinte, o filme anunciado era o “Transporte dos restos mortais de João Lisboa, em 26 de abril” com cenas no cemitério, o préstito na Rua do Passeio e na Praça João Lisboa.

E assim se deram, de forma bem resumida, as primeiras experiências de São Luís com os meandros da "7ª Arte".

Infelizmente houve um vácuo na produção cinematográfica local notada até os tempos da utilização da Super-8, já nos idos da década de 60.
Nessa época, figuras com Murilo Santos, Euclides Moreira Neto e outros membros de núcleos acadêmicos de cinema, através de produções engajadas, de forte cunho político e social, foram os responsáveis pela retomada do cinema local e pela criação do que seria, mais tarde, um dos festivais de cinema mais respeitados nacionalmente, o Guarnicê.




Foto: Histoire d'un crime (Ferdinand Zecca, 1901) - Estúdio Pathè Frères (Paris)
Fonte: MARCOS FÁBIO BELO MATOS: Os primeiros filmes maranhenses.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Naufrágio do Navio Maria Celeste



"É Maria Celeste nas águas a queimar. É o sol se pondo em réstias na praia..." já dizia a maravilhosa música da Cia. Barrica do raríssimo LP de 1988; "Boizinho Barrica à luz de uma estrela", tão lindamente interpretada por Gabriel Melônio.

Pois foi exatamente este o sentimento vivido por quem testemunhou o referido acidente, o de impotência diante de uma catástrofe de proporções singulares no cotidiano ludovicense, em meio aos ares ainda pacatos do que restou da pomposa São Luís oitocentista.

O ano era 1954. A tarde do dia 16 de março deste ano jamais será esquecida; desfigurava-se em chamas diante de centenas de curiosos atônitos e em pleno Porto de São Luís, antiga Rampa Campos Melo (hoje Cais da Sagração, de onde partem as viagens de embarcações para a cidade de Alcântara), um cargueiro de fabricação paulista, o Navio Maria Celeste, então com apenas 10 anos de fabricação.

A apenas 500 metros da costa, houve uma explosão no interior do Navio provocada por problemas elétricos, ocasionando toda a catástrofe e posterior naufrágio deste. Os 54 metros de comprimentoe a capacidade de 632 toneladas de carga só ajudaram a disseminar as chamas; o navio carregava 1000 cilindros de parafina e 3000 de combustível!

O Maria Celeste ardeu em chamas durante 3 dias seguidos! O saldo não poderia ser menos trágico; aproximadamente 16 pessoas morreram no acidente e muitos saíram feridos. Pequenas embarcações presentes na baía ajudaram no resgate das vítimas, em meio à cortina tóxica de fumaça e barris em chamas sendo lançados pelo ar, como mostra o relato de Antônio Pereira Cândido, filho de um dos náufragos do navio.

Definitivamente, o acidente, cuja proporção impressionaria inclusive atualmente, mudou a rotina da centro histórico ludovicense naquele dia e nos que se seguiram. O interessante é que até bem pouco tempo podia-se notar ainda os destroços do Maria Celeste próximo ao Cais da Sagração em dias de marés muito baixas, retirados por questões óbvias de segurança. Pra onde foram levados os destroços? Só Deus sabe...

Foto: Dreyfus Nabor Azoubel, O Imparcial, 1954.

terça-feira, 7 de abril de 2009

História da Fotografia em São Luís



Um fato deveras curioso é a pobreza dos registros referentes às técnicas de captação de imagens em nossa cidade e, por conseguinte, em nosso Estado. São poucos os historiadores, tendo como uma das exceções Jomar Moraes, que tratam de forma satisfatória do assunto, apesar de sua importância e pioneirismo notado por aqui comparado a outras muitas províncias do Império.

Por esse motivo, e pelo fato de que os artigos aqui escritos buscam principalmente na reprodução de fotografias raras o seu maior atrativo, resolvi abordar o assunto da forma mais didática e prática possível, tentando dar forma à cronologia destes eventos em terras maranhenses.

Sabe-se que as técnicas de reprodução de imagem, após sua descoberta em Agosto de 1839, na França, por Louis Jacques Mandé Daguerre, não tardaram a chegar ao Maranhão. Registros históricos confirmam a presença da técnica em São Luís já em Agosto de 1846, com o "daguerreotipista" norte-americano Charles D. Fredericks, sob a razão social A. & C. D. Fredericks (o "A." referia-se ao seu acompanhente e sócio Alexander B. Weeks, que depois desligou-se da firma). Esta empresa, com seu proprietário recém-chegado de Belém, se propunha a fazer retratos coloridos de interessados da sociedade maranhense pelo processo de daguerreotipia.
Em Janeiro do ano seguinte, Fredericks ainda permanecia na cidade, oferecendo seus serviços, anunciando produtos recém-chegados de Nova York. A tabela de preços estava na média do que se cobrava em outras províncias: 5$000 os retratos pequenos e 8$000 os retratos grandes.

Ampliações, miniaturizações, cópias coloridas, assim como cobertura de eventos e ocasiões fúnebres já eram oferecidos como diferenciais da firma de Fredericks.
Deixou o Maranhão por volta de 1847. Após passar por cidades como Alcântara, São Luís, Belém, Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador juntando recursos, voltou aos Estados Unidos para lá fundar, à época o maior estabelecimento fotográfico daquele país, nos anos 60 do século XIX.

Depois de Fredericks, diversos retratistas surgem anunciando seus serviços na imprensa maranhense, quase sempre de passagem, fazendo esporádicas visitas ao interior da província. Até a fixação da técnica fotográfica propriamente dita, foram notadas ao longo do tempo a técnica da daguerreotipia, da eletrotipia e da cristalografia.

Já no ano de 1866, diversos empreendimentos fotográficos de diversos gêneros já existiam com sede fixa na capital e em pontos bem localizados comercialmente. É o que mostra o Almanak administrativo, mercantil e industrial para o ano de 1866 (B. de Matos, 1866) que cita, entre outros, os nomes de Domingos Tribuzi (retrato a óleo) e José Leon Righini (paisagista e cenógrafo).

Além dos retratistas a fumo, a óleo e fumo e paisagistas, 7 profissionais eram preferidos exclusivamente como fotógrafos pela sociedade ludovicense:

Antônio de Freitas Ribeiro - Rua da Paz, 12
Antônio José de Araújo Lima - Largo do Palácio
Fortunato Ory - Largo do Palácio
Henrique Elias Neves - Rua Gonçalves Dias, 11
José dos Reis Rayol - Rua Gonçalves Dias, 102
João Luiz de Cerqueira - Rua da Saúde, 25
Justino Norat - Rua Grande, 5

Alguns destes já trabalhavam há anos em São Luís, e permaneceram no ofício por muito tempo, gozando de vasta clientela.

A partir da segunda metade dos anos 80 do século XIX surgem diversos estabelecimentos fotográficos na Capital, entre eles a Photographia União, de propriedade de Gaudêncio Cunha (fonte principal das fotos dos artigos aqui publicados) recém-chegado de Belém com João d'Oliveira Pantoja, inaugurada em 1º de Setembro de 1895, na Rua da Cruz nº. 47.

Nota-se então, uma profissionalização cada vez maior destes empreendimentos na Capital, deixando os fotógrafos de serem também amoladores de facas, vendedores de jóias ou professores de artes marciais. Outra característica importante é a sede própria obrigatória destes estúdios, dando a oportunidade aos interessados clientes do interior da província do acesso e comodidade à prestação dos serviços.

Os reflexos da Abolição da Escravatura e a crise do parque fabril maranhense comprometeram severamente a perenidade deste tipo de negócio; muitos faliram, não suportando a inadimplência e custo elevado das matérias primas.

O certo é que, ainda assim, diversos grupos ainda resistiram ao tempo, passando inclusive a tradição fotográfica pra outros familiares. Foto Popular, Brasil, Paris, Avenida, Berlim e Foto Londres eram alguns estabelecimentos notados na cidade durante a década de 50 do século XX. Outras mais surgiram e desapareceram ao longo dos anos...

Foto: Photographia União

terça-feira, 17 de março de 2009

Lord Cochrane em São Luís e a Adesão do Maranhão à Independência


Lord Thomas Alexander Cochrane, 10.° conde de Dundonald, foi um almirante escocês da Real Marinha Britânica. Nascido em Annsfield (1775), ingressou na Armada Britânica com apenas 17 anos de idade, chegando, posteriormente, a combater contra o próprio Napoleão Bonaparte, que o apelidou de Loup de Mer (Lobo do Mar), tamanha era sua ousadia e vivacidade no campo de batalha. Virou membro do Parlamento Inglês e, acusado de envolvimento com atividades fraudulentas, em 1814 foi preso e obrigado a deixar a carreira naval.

Após este período nebuloso, acabou se refugiando na América Latina, onde seus serviços foram novamente requisitados em prol das lutas independentistas deste continente contra Espanha e Portugal. O que pouca gente sabe, entretanto, é que este famoso militar teve intensa participação na Adesão Maranhense à Indepêndencia do Brasil, senão decisiva.

É sabido que a forte influência e dominação lusitana que sempre aqui existiu, aliada à nossa antiga aristocracia extremamente escravocrata e conservadora, de estreitas ligações com a Metrópole e alheia aos comandos vindos do Rio de Janeiro, fez com que o Maranhão aderisse à Independência do Brasil somente em 1823, sob forte resistência dos lusos.

Foi da Junta Governativa de São Luís, sob a liderança do Major Fidié, a intenção de reprimir os atos independentistas no Piauí. Após derrota na Batalha do Jenipapo neste Estado, Fidié foge das tropas brasileiras e se refugia em Caxias. Depois de preso, foi enviado a Portugal, onde foi recebido como herói.

Os portugueses começam, então, a perder força pela falta de apoio em diversas cidades e povoados do interior; os atos independentistas eram um caminho sem volta. Restava o recôncavo luso mais bem consolidado e resistente: a Capital!

Neste momento surge a figura de Lord Cochrane que, sob ordens do Rio de Janeiro, foi enviado para cá, afim de sufocar a resistência com uma poderosa força militar. Sua esquadra foi recebida na costa ludovicense sob o pretexto de que seria um reforço português. Foi um golpe de mestre; conseguiu de forma "tranquila" desembarcar seus homens e aprisionar alguns líderes militares lusos. Tomou o controle da cidade obrigando-a a aderir, a 28 de Julho de 1823, à Independência do Brasil. No final de Agosto, o Maranhão já se encontrava devidamente incorporado ao Império, pagando caro, a partir daí, com alguns embargos imperiais por conta de sua "teimosia".

Acredito que a memória dos lusos de São Luís para o fato foi bem curta; no mesmo período da tomada da cidade, ofereceram prontamente jantar e baile a Lord Cochrane. O local onde ocorreu a homenagem é mostrado na foto; é o Solar Cesário Veras, o sobradão à direita, ao fundo, na intersecção do Beco do Couto com a Rua do Egito.

Ao que parece é que a transição foi absorvida pelos portugueses muito mais rapidamente do que se pensa...


Foto: Guia de São Luís do Maranhão, Jomar Moraes, 1995.

domingo, 8 de março de 2009

O Caso Pontes Visgueiro


A pacata São Luís do Período Imperial foi palco de célebres crimes que, por sua repercussão e importância social e política, além de estranhas coincidências, ficaram eternizados nos anais históricos do país. Não só a opinião pública da conservadora cidade foi abalada, mas diversas instituições, algumas das quais os próprios réus e outros relacionados aos crimes faziam parte.

Neste e em outros artigos (já que os temas são vastos e de considerável envolvimento social) iremos tratar dos principais crimes ocorridos à época, dando ênfase aos acontecimentos mais interessantes que os envolvem. Pois bem.

Um caso memorável foi o chamado "Caso Pontes Visgueiro", onde a vítima, de comportamento social duvidoso, acabou se tornando "mártir" por conta dos requintes de frieza e crueldade que o envolveram .

A jovem mulata Maria da Conceição era conhecida por sua incontestável beleza (como mostra o raro bico-de-pena reproduzido acima), assim como sua leviandade, vida livre e irriquietude. Era uma prostituta festeira, e parceira de todos os momentos de estudantes, comerciários e qualquer outro disponível para suas pândegas. A conservadora sociedade ludovicense dos idos de 1870 logo apelidou-a de Mariquinhas Devassa.

Por volta do ano de 1872, o Desembargador alagoano José Cândido Pontes Visgueiro, um homem de mais de 60 anos de idade, solteiro e com deficiência auditiva, caiu de amores por Mariquinhas. Passou a ter uma desencontrada relação amorosa com a adolescente a partir de então. Residia num sobrado da Rua de São João nº. 124, hoje pertencente à Caixa Econômica Federal, onde, a 14 de agosto de 1873, aconteceu o cruel homicídio.

Pontes Visgueiro fora uma criança acometida por uma grave doença, além de traumas durante a juventude provocados por problemas familiares. Já com idade avançada, mostrava sinais de esclerose. Ao contrário, Mariquinhas sempre levou uma vida independente. Nunca se apegara a ninguém; e não seria dessa vez! Sobrevivia, desde nova, à base de pequenos furtos e esmolagem.
Naturalmente encontrou nos caprichos e presentes oferecidos por esse senhor, o comodismo necessário para apresentar-se como sua amante, frequentando-lhe a casa, muitas vezes na companhia de amigas. Esses encontros foram descritos pela comparsa Ana Rosa Pereira, de 19 anos, num dos seus depoimentos:

- Maria e a companheira deitavam-se, mas o desembargador levava toda a noite acordado, passando pelos diversos aposentos da casa e, de vez em quando, se ajoelhava junto ao leito de Maria, permanecendo em contemplação das suas formas.

Várias eram as vezes que Visgueiro a seguia pela cidade e, em muitas dessas perseguições, a encontrava nos braços de outro homem. Desentendiam-se mais logo se acertavam; nenhuma atitude extremada tinha sido tomada por ele até então. Com o tempo a situação se agravou e, pra tentar esquecer Maria, com a qual estava bastante envolvido, Visgueiro refugiou-se no interior do Piauí até julho de 1873, onde começou a arquitetar seu plano macabro com ajuda de um cafuso de nome Guilhermino.

Pontes Visgueiro retornou a São Luís, logo mandando encomendar um caixão de zinco sob a reponsabilidade do ourives e funileiro Amâncio José da Paixão Cearense, seu compadre e pai do poeta Catulo da Paixão Cearense.

No dia 10 de agosto, mais uma vez o magistrado flagrou-a inesperadamente na companhia de outro homem em sua casa na Rua de Santo Antônio. Era o estudante Joaquim Pinheiro da Costa. Inacreditavelmente, ele não mostrou qualquer reação mais violenta.

Visgueiro, nos dias seguintes, tanto aliciou Mariquinhas que esta sucumbiu ao seu convite de ir ao seu sobrado mais uma vez. Havia lhe comprado um presente. Mariquinhas aceitou o convite, mas somente na companhia de sua amiga Teresa de Jesus Lacerda.
Passaram a tarde inteira conversando, até que Mariquinhas aceitou ficar a sós com Visgueiro; Teresa voltaria mais tarde para buscá-la.

Subiram até um aposento do andar superior do sobrado para ver o suposto presente. Ali, com ajuda de Guilhermino, Pontes Visgueiro amarrou, entorpeceu e apunhalou Mariquinhas diversas vezes. Tomado pelo ódio e frenesi sanguinário, mordia-lhes os seios. Depois esquartejou-a para que o cadáver coubesse no caixão, que logo foi soldado e colocado dentro de outro caixão de cedro. Foi enterrada no quintal.

Os requintes macabros e bizarros que envolveram o crime foram também descritos no inquérito por outro cúmplice, que "viu Maria da conceição estirada no meio do soalho com os pés para a porta e a cabeça para a parede. O desembargador foi sobre ella, mordeu-a no peito e deu-lhe uma punhalada no lado oposto ao que ella já tinha outra, e ella ainda abriu a boca. Puxou o desembargador um caixão grande, que ali estava encostado, e os dois lançaram o cadáver dentro, o qual ficou ficou com as pernas da parte de fora e a cabeça um pouco inclinada. Tendo elle ido buscar, por ordem do desembargador, uma lata de cal, que estava na sala de jantar, e comprar, com 2$000, que elle lhe deu, solda e ferro de soldar, encontrou, voltando, a perna do cadaver amarrado á coxa com uma corda, que, depois, o desembargador cortou para pôr a perna em condições de decepa-la, como fez, afim de melhor arrumar o cadaver no chão, o que foi feito, enterrou um trinchete no ventre do cadaver".

Após instaurado o inquérito, o crime foi descoberto. A população revoltada apedrejou e pilhou a casa de Pontes Visgueiro, quase chegando a linchar o acusado.
Ele seguiu preso para a Corte, onde foi julgado e, orientado pelo seu advogado Franklin Doria e alegando insanidade mental, induziu o Judiciário ao erro. Foi condenado a prisão perpétua, livrando-se da inevitável pena de morte.



Bico-de-pena: Guia de São Luís do Maranhão, Jomar Moraes, 1995.